fome-vento:

notas sobre nada [de novo] debaixo do sol.

[mva]

Apr 16

“O sol se põe em São Paulo”

“A Liberdade é um desses bairros de São Paulo que, embora em menor escala do que nas regiões mais ricas, e por isso mesmo de um modo às vezes até simpático, ressalta no mau gosto da sua rala fantasia arquitetônica o que a cidade tem de mais pobre e de paradoxalmente mais autêntico: a vontade de passar pelo que não é. O pôr-do-sol em São Paulo é reputado como um dos mais espetaculares, por causa da poluição, eu disse ao homem com lábio leporino. Só fui entender que São Paulo era uma cidade de monumentos - mas onde os monumentos não existiam; eram por assim dizer invisíveis - no dia em que sonhei que dirigia um carro, de monumento em monumento, pelas ruas vazias de uma tarde de domingo, no inverno, uma estação que aqui também não existe. Eram monumentos que eu nunca tinha visto antes, e que só existiam no meu sonho, em lugares onde na realidade se erguem os prédios mais decrépitos ou as fantasias arquitetônicas mais tolas e não menos pavorosas. São Paulo não se enxerga - ou não chamaria periferia de periferia. Não é só eufemismo. Chamam-se excluídos aos oitenta por cento da população. Não é à toa que é uma cidade de publicitários. Em São Paulo, publicidade é literatura, expliquei ao homem com lábio leporino, em inglês, sem deixar claro se fazia uma crítica ou me justificava. É uma cidade que quer estar em outro lugar e em outro tempo. E essa vontade só a faz ser cada vez mais o que é e o que não quer ser. As mansões mouriscas e ecléticas do começo do século XX (a maioria derrubada) e os prédios mediterrâneos, neoclássicos, florentinos e normandos construídos há poucas décadas revelam o atraso do presente. Cada imigrante, achando que transplantava o estilo da sua terra e dos antepassados, acabou contribuindo para a caricatura local. Em Nova York, também houve um momento de exaltação capitalista, antes da quebra da bolsa, em 1929, quando o poder do novo dinheiro ergueu prédios renascentistas, na tentativa de transformar a cidade numa nova Florença. Quase cem anos depois, o poder do novo dinheiro ergueu em São Paulo - uma cidade sitiada pela miséria e pelo crime, dos quais esse mesmo poder se alimenta embora tente em vão excluí-los - prédios de estuque, que foram batizados de ‘estilo florentino’, na tentativa de imitar a antiga Nova York. Não é só que esteja tudo fora do lugar. Está tudo fora do tempo também. Na Liberdade, nem mesmo um bêbado, ao sair trôpego de um restaurante, acreditando que é escritor, pode achar que está numa viela tranqüila dos subúrbios de Tóquio e não numa megalópole violenta do Terceiro Mundo. E, no entanto, é disso que as ruas de São Paulo tentam convencer quem passa por elas: que está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão e o incômodo de estar aqui, o mal-estar de viver no presente e de ser o que é.”

Bernardo Carvalho, O sol se põe em São Paulo, Companhia das Letras, 2007. p. 13-15.


Dec 28

o vazio é maior

“Os átomos são constituídos por núcleos e elétrons que vibram em volta deles.

Mas a distância entre os núcleos e seus elétrons é mais que mil vezes suas dimensões.

Observe aqueles arbustos. Eles parecem uma massa compacta. Se você olhar mais de perto, você verifica que o vazio é maior que a matéria.”

Erótica Aventura (À l’aventure), Jean-Claude Brisseau, 2009.


Dec 22

para não gozar de um conforto

“ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós?”

Albert Camus, A queda. Tradução: Valérie Rumjanek.


Nov 16

“Todo este calor se apoiava contra mim”

”Era o mesmo brilho avermelhado. Na areia, o mar ofegava com a respiração rápida e abafada das pequenas ondas que se sucediam umas às outras. Dirigia-me lentamente para os rochedos e sentia que a testa me inchava, sob o peso do sol. Todo este calor se apoiava contra mim, opondo-se ao meu avanço. E cada vez que sentia o sopro quente deste calor enorme na minha cara, cerrava os dentes, apertava os punhos nas algibeiras das calças, retesava-me todo para triunfar do sol e da embriagues opaca que caía sobre mim. A cada espada de luz surgida da areia, de uma concha esbranquiçada ou de um vidro partido, os queixos crispavam-se. Andei assim durante muito tempo.”

 
Albert Camus, O estrangeiro. Tradução: Antônio Quadros.


Sep 21

“Ele disse que Deus mentiu para ele”

“E ele cansou de esperar que os peixes aparecessem e que os figos ficassem do tamanho de uma abóbora. Cansou também de ouvir as pessoas perguntando sobre o recado de Deus. E um dia pegou uma espingarda e foi para a serra. E lá do alto começou a atirar para cima. Os que escutavam os tiros perguntavam o que estava acontecendo com ele.

— O que está acontecendo com o Claudiano?

E tinham medo de ir até a serra. Até os soldados ficaram embaixo, esperando que ele parasse com os tiros para então subirem.

— O único que foi e conversou com ele foi meu irmão — disse o homem.

E contou que o irmão tinha dito aos soldados quando voltou:

— Claudiano não quer parar com os tiros. Mas eles estão terminando.

E os soldados lhe perguntaram:

— O que ele está fazendo?

— Está dando tiros para o alto.

— Mas por que está fazendo isto?

— Está atirando em Deus.

— Em Deus? — estranharam os soldados.

— Ele disse que Deus mentiu para ele. E por isto está lá em cima tentando acertá-lo.”

Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos.


“Morreu rasgando a blusa no corpo”

“E o homem se referiu ao velho preso numa cadeira de rodas com quem o irmão conversava.

— Ele sempre escuta as coisas que aquele velho diz.

E contou que uma vez havia dito ao irmão:

— Você ouve as histórias desse velho, mesmo sabendo que ele não pode ser levado a sério, e não escuta o que eu falo.

E que o irmão havia respondido:

— Você tem certeza que ele não pode ser levado a sério?

— E eu estranhei isso — disse o homem à sua mulher.

E contou para ela as coisas que falavam do velho.

— Dizem que nada deu certo na sua vida. Que sempre andou atrás de coisas que não existiam. Que deixava a mulher e as filhas à míngua. Deixava-as na beirada do tanque se matando para lavar montanhas e montanhas de roupas, enquanto ia atrás de coisas que não existiam. Coisas que não ia encontrar nunca. Disse que a mulher do velho morreu sentindo falta de ar, de tanto esforço e trabalho.

— Morreu rasgando a blusa no corpo — falou o homem.

E que mesmo depois de todos esses sofrimentos o velho não havia aprendido. Ficava, agora que não podia mais andar, sentado numa cadeira de rodas contando histórias de mentiras.

— Histórias absurdas — comentou.

E disse que o velho durante o dia contava histórias; e à noite chorava com medo de ficar sozinho. Chorava com medo de ficar sozinho e a alma da mulher aparecer para levá-lo. Contou de uma noite em que o velho acordou a todos gritando, pedindo socorro. Pedindo para que o socorressem porque sua mulher o estava levando.

— Ele disse que ela chegou a puxar suas mãos.

E que depois dessa noite as mãos do velho não esquentaram mais.

Estão agora sempre frias. E ele tem medo de ficar sozinho e a mulher aparecer e lhe dar um abraço.”

Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos.


Sep 19

porque solamente se cansa uno de lo nuevo

“La esperanza es un vestido nuevo, flamante, sin ningún pliegue ni arruga, pero del que no puedes saber, ya que no le has puesto nunca, si te cae o sienta bien. El recuerdo es un vestido desechado que, por muy bello que sea o te parezca, no te puede caer bien, pues ya no corresponde a tu estatura. La repetición es un vestido indestructible que se acomoda perfecta y delicadamente a tu talle, sin presionarte lo más mínimo y sin que, por otra parte, parezca que llevas encima como un saco. La esperanza es una encantadora muchacha que, irremisiblemente, se le escurre a uno entre las manos. El recuerdo es una vieja mujer todavía hermosa, pero con la que ya no puedes intentar nada en el instante. La repetición es una esposa amada, de la que nunca jamás llegas a sentir hastío, porque solamente se cansa uno de lo nuevo, pero no de las cosas antiguas, cuya presencia constituye una fuente inagotable de placer y felicidad. Claro que para ser verdaderamente feliz en este último caso, es necesario no dejarse engañar con la idea fantástica de que la repetición tiene que ofrecerle a uno algo nuevo, pues entonces le causará hastío.” (Sören KierkegaardLa Repeticion)


Sep 17

A repetição

“A autêntica repetição, supondo-se que seja possível, faz o homem feliz, ao passo que a recordação o faz desgraçado”. Sören Kierkegaard, A repetição


Sep 2
“Sinto como é pequeno meu interesse por aquilo a que chamam de mundo, e como me é grandioso e arrebatador o que eu, em silêncio, chamo de mundo.” Robert Walser, Jakob von Gunten (via ranchocarne)

Aug 6

pedra entre pedras

“A manhã que despontou estava cheia de pássaros e de ar fresco. O sol subiu rapidamente e, de um salto, ficou acima do horizonte. A terra cobriu-se de ouro e de calor. Na manhã, o céu e o mar se salpicavam de luzes azuis e amarelas, com grandes manchas que saltavam. Um vento leve erguera-se, e, pela janela, um ar com gosto de sal vinha refrescar as mãos de Mersault. Ao meio-dia, o vento cessou, o dia explodiu como um fruto maduro, e sobre toda a extensão do mundo, escorreu um suco morno e sufocante, ao som de um repentino concerto de cigarras. O mar cobriu-se deste suco dourado como de um óleo, e devolveu à terra esmagada pelo sol um sopro quente, que a impregnou, exalando cheiros de absinto, de alecrim e de pedra quente. Da cama, Mersault captou esse choque e essa oferenda, e abriu os olhos sobre o mar imenso e curvo, reluzente, povoado de sorrisos dos seus deuses. Deu-se conta, de repente, de que estava sentado na cama e que o rosto de Lucienne estava bem perto do seu. Lentamente, subia dentro dele, como que desde o ventre, uma pedra que se encaminhava para a garganta. Respirava cada vez mais rápido, aproveitando a transição. A coisa continuava a subir. Olhou para Lucienne. Sorriu, sem uma crispação, e também esse sorriso vinha do interior. Recostou-se na cama, sentindo a lenta subida que havia em si. Olhou para os lábios inchados de Lucienne, e, por trás dele, o sorriso da terra. Ele os via com o mesmo olhar e com o mesmo desejo.

‘Daqui a um minuto, daqui a um segundo’, pensou. A subida terminara. E, pedra entre pedras, ele retornou, na alegria de seu coração, à verdade dos mundos imóveis.”

Albert Camus, A morte feliz. Tradução Valerie Rumjanek, Editora Record.


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