Tentando
“A imagem é a de um homem incrivelmente inteligente, cada vez mais humilde, tentando descobrir, por razões pessoais e literárias, como estar vivo no universo, e fracassando”.
Benjamin Markovits sobre DFW, na Ilustríssima.
“A imagem é a de um homem incrivelmente inteligente, cada vez mais humilde, tentando descobrir, por razões pessoais e literárias, como estar vivo no universo, e fracassando”.
Benjamin Markovits sobre DFW, na Ilustríssima.
“Só tinha se dado conta naquele momento de que encontrar uma vaga para estacionar o carro seria um problema. Durante os vinte e cinco minutos seguintes, Louis e Renée passaram pelo prédio de Peter Stoorhuys oito vezes. O trânsito estava intenso e anormal, os carros se arrastando pelos quarteirões aburguesados num cakewall invertido, todos esperando que um espaço vagasse. Louis dava voltas e mais voltas, a cada uma delas se afastando cada vez mais do prédio de Peter. Ignorava vagas que lhe pareciam distantes demais e depois, quando voltava a elas com uma ideia mais bem informada de seu valor, elas já tinham sido ocupadas. (Era como aprender da forma mais difícil em que momentos comprar ações da Bolsa.) Tentava fazer o carro entrar em vagas que ele já sabia que eram pequenas demais. Metia o pé no freio quando passava em frente a hidrantes e em seguida metia o pé no acelerador. Furou sinais vermelhos. E quando, mais perto das dez horas do que das nove, encontrou uma vaga livre a um quarteirão do prédio de Peter, quase ficou desconfiado demais para pegá-la. Três carros na frente dele haviam passado por ela com o júbilo dos insiders. Não parecia haver nenhum hidrante, nem entrada de garagem, nem placa informando ser a vaga exclusiva do morador, e, embora devesse ter acabado de aparecer, o espaço de alguma forma não parecia fresco. Louis entrou de ré na vaga, franzindo o cenho ressabiado, como um tigre na floresta faria se encontrasse uma picanha crua embrulhada em papel encerrado. Seu quadril estava molhado do suor que tinha escorrido de suas axilas.
‘Parecia boa a festa lá’ “.
Jonathan Franzen, Tremor. Tradução: Sonia Morreira. Companhia das Letras, 2012. p. 136-137
“A Liberdade é um desses bairros de São Paulo que, embora em menor escala do que nas regiões mais ricas, e por isso mesmo de um modo às vezes até simpático, ressalta no mau gosto da sua rala fantasia arquitetônica o que a cidade tem de mais pobre e de paradoxalmente mais autêntico: a vontade de passar pelo que não é. O pôr-do-sol em São Paulo é reputado como um dos mais espetaculares, por causa da poluição, eu disse ao homem com lábio leporino. Só fui entender que São Paulo era uma cidade de monumentos - mas onde os monumentos não existiam; eram por assim dizer invisíveis - no dia em que sonhei que dirigia um carro, de monumento em monumento, pelas ruas vazias de uma tarde de domingo, no inverno, uma estação que aqui também não existe. Eram monumentos que eu nunca tinha visto antes, e que só existiam no meu sonho, em lugares onde na realidade se erguem os prédios mais decrépitos ou as fantasias arquitetônicas mais tolas e não menos pavorosas. São Paulo não se enxerga - ou não chamaria periferia de periferia. Não é só eufemismo. Chamam-se excluídos aos oitenta por cento da população. Não é à toa que é uma cidade de publicitários. Em São Paulo, publicidade é literatura, expliquei ao homem com lábio leporino, em inglês, sem deixar claro se fazia uma crítica ou me justificava. É uma cidade que quer estar em outro lugar e em outro tempo. E essa vontade só a faz ser cada vez mais o que é e o que não quer ser. As mansões mouriscas e ecléticas do começo do século XX (a maioria derrubada) e os prédios mediterrâneos, neoclássicos, florentinos e normandos construídos há poucas décadas revelam o atraso do presente. Cada imigrante, achando que transplantava o estilo da sua terra e dos antepassados, acabou contribuindo para a caricatura local. Em Nova York, também houve um momento de exaltação capitalista, antes da quebra da bolsa, em 1929, quando o poder do novo dinheiro ergueu prédios renascentistas, na tentativa de transformar a cidade numa nova Florença. Quase cem anos depois, o poder do novo dinheiro ergueu em São Paulo - uma cidade sitiada pela miséria e pelo crime, dos quais esse mesmo poder se alimenta embora tente em vão excluí-los - prédios de estuque, que foram batizados de ‘estilo florentino’, na tentativa de imitar a antiga Nova York. Não é só que esteja tudo fora do lugar. Está tudo fora do tempo também. Na Liberdade, nem mesmo um bêbado, ao sair trôpego de um restaurante, acreditando que é escritor, pode achar que está numa viela tranqüila dos subúrbios de Tóquio e não numa megalópole violenta do Terceiro Mundo. E, no entanto, é disso que as ruas de São Paulo tentam convencer quem passa por elas: que está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão e o incômodo de estar aqui, o mal-estar de viver no presente e de ser o que é.”
Bernardo Carvalho, O sol se põe em São Paulo, Companhia das Letras, 2007. p. 13-15.
“Os átomos são constituídos por núcleos e elétrons que vibram em volta deles.
Mas a distância entre os núcleos e seus elétrons é mais que mil vezes suas dimensões.
Observe aqueles arbustos. Eles parecem uma massa compacta. Se você olhar mais de perto, você verifica que o vazio é maior que a matéria.”
Erótica Aventura (À l’aventure), Jean-Claude Brisseau, 2009.
“ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós?”
Albert Camus, A queda. Tradução: Valérie Rumjanek.
“E ele cansou de esperar que os peixes aparecessem e que os figos ficassem do tamanho de uma abóbora. Cansou também de ouvir as pessoas perguntando sobre o recado de Deus. E um dia pegou uma espingarda e foi para a serra. E lá do alto começou a atirar para cima. Os que escutavam os tiros perguntavam o que estava acontecendo com ele.
— O que está acontecendo com o Claudiano?
E tinham medo de ir até a serra. Até os soldados ficaram embaixo, esperando que ele parasse com os tiros para então subirem.
— O único que foi e conversou com ele foi meu irmão — disse o homem.
E contou que o irmão tinha dito aos soldados quando voltou:
— Claudiano não quer parar com os tiros. Mas eles estão terminando.
E os soldados lhe perguntaram:
— O que ele está fazendo?
— Está dando tiros para o alto.
— Mas por que está fazendo isto?
— Está atirando em Deus.
— Em Deus? — estranharam os soldados.
— Ele disse que Deus mentiu para ele. E por isto está lá em cima tentando acertá-lo.”
Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos.
“E o homem se referiu ao velho preso numa cadeira de rodas com quem o irmão conversava.
— Ele sempre escuta as coisas que aquele velho diz.
E contou que uma vez havia dito ao irmão:
— Você ouve as histórias desse velho, mesmo sabendo que ele não pode ser levado a sério, e não escuta o que eu falo.
E que o irmão havia respondido:
— Você tem certeza que ele não pode ser levado a sério?
— E eu estranhei isso — disse o homem à sua mulher.
E contou para ela as coisas que falavam do velho.
— Dizem que nada deu certo na sua vida. Que sempre andou atrás de coisas que não existiam. Que deixava a mulher e as filhas à míngua. Deixava-as na beirada do tanque se matando para lavar montanhas e montanhas de roupas, enquanto ia atrás de coisas que não existiam. Coisas que não ia encontrar nunca. Disse que a mulher do velho morreu sentindo falta de ar, de tanto esforço e trabalho.
— Morreu rasgando a blusa no corpo — falou o homem.
E que mesmo depois de todos esses sofrimentos o velho não havia aprendido. Ficava, agora que não podia mais andar, sentado numa cadeira de rodas contando histórias de mentiras.
— Histórias absurdas — comentou.
E disse que o velho durante o dia contava histórias; e à noite chorava com medo de ficar sozinho. Chorava com medo de ficar sozinho e a alma da mulher aparecer para levá-lo. Contou de uma noite em que o velho acordou a todos gritando, pedindo socorro. Pedindo para que o socorressem porque sua mulher o estava levando.
— Ele disse que ela chegou a puxar suas mãos.
E que depois dessa noite as mãos do velho não esquentaram mais.
Estão agora sempre frias. E ele tem medo de ficar sozinho e a mulher aparecer e lhe dar um abraço.”
Oswaldo França Júnior, Os dois irmãos.
“La esperanza es un vestido nuevo, flamante, sin ningún pliegue ni arruga, pero del que no puedes saber, ya que no le has puesto nunca, si te cae o sienta bien. El recuerdo es un vestido desechado que, por muy bello que sea o te parezca, no te puede caer bien, pues ya no corresponde a tu estatura. La repetición es un vestido indestructible que se acomoda perfecta y delicadamente a tu talle, sin presionarte lo más mínimo y sin que, por otra parte, parezca que llevas encima como un saco. La esperanza es una encantadora muchacha que, irremisiblemente, se le escurre a uno entre las manos. El recuerdo es una vieja mujer todavía hermosa, pero con la que ya no puedes intentar nada en el instante. La repetición es una esposa amada, de la que nunca jamás llegas a sentir hastío, porque solamente se cansa uno de lo nuevo, pero no de las cosas antiguas, cuya presencia constituye una fuente inagotable de placer y felicidad. Claro que para ser verdaderamente feliz en este último caso, es necesario no dejarse engañar con la idea fantástica de que la repetición tiene que ofrecerle a uno algo nuevo, pues entonces le causará hastío.” (Sören Kierkegaard, La Repeticion)
“A autêntica repetição, supondo-se que seja possível, faz o homem feliz, ao passo que a recordação o faz desgraçado”. Sören Kierkegaard, A repetição